A Família, a Função Parental e os Média

Cobertura jornalística da Família como prestadora de cuidados às Crianças

Recolha de artigos que abordem a Família e a Função Parental, publicados nos “média” em Portugal, durante um período consecutivo de seis semanas, permitindo avaliar a forma como é percepcionada a Família e o desempenho da maternidade e da paternidade, com o objectivo último de identificar valores e o imaginário social, e indicar eventuais medidas que conduzam à assimilação dos novos paradigmas da parentalidade.


A família é a unidade base da sociedade e como tal deve ser reforçada.

(Resolução “A world fit for children” da Assembleia Gerald as Nações Unidas (A/RES/S-27-2) adoptada em 10 de Maio de 2002, ponto I.15 do Anexo.)

O postulado incluído na afirmação acima baseia-se, naturalmente, nas funções da Família.

Existem, ainda, muitas questões sobre a Família que não estão resolvidas.

Se a família é base da sociedade, daí esta a explicação para tantos problemas sociais.
Há uma decadência da estruturação familiar que vem desencadeando diversos conflitos sociais. Por isso, torna-se importante a forma de organização familiar que a família assume, enquanto elemento relevante no modo de condução do processo de socialização das crianças, na forma como transmite seus valores, normas e modelos de conduta na orientação dos direitos e deveres.

Os estudiosos e investigadores apontam algumas delas, como sejam aquelas relacionadas com os Papéis Parentais, por exemplo:

- O modelo maternal vigente permite um equitativo desempenho da função paternal?

        - Que funções desempenham os pais/homens na família?

      

Na verdade, os estereótipos ligados ao género, continuam a prevalecer!

Exemplo disso são os conceitos a que os "média" continuam a dar eco e duma forma continuada, a fazer prevalecer no "espírito da opinião pública".

 

" ... - o que se espera ao longo da vida (seja ela vivida em que época for) é que os pais sejam capazes de dar protecção aos filhos.   À mãe pede-se conforto para apaziguar medos e sofrimentos.   No pai idealiza-se a figura da força, do poder e da justiça."

«Como os filhos vêm os pais»
Luísa Oliveira   com   Maria João Sequeira

Revista "Visão", n.º 435 - 12 a 18 de Julho 2001, p. 105

 

Os meios de comunicação, às vezes sem querer, vão estereotipando modelos de mulher-mãe e de homem-pai, que posteriormente cada uma das pessoas se encarrega de reproduzir com adaptações pessoais no seio de sua família.

Vários autores são coincidentes ao descrever a existência de uma série de características estereotipadas e assumidas pelos média como indicadores da norma. Tais características são:

·         Provedor, trabalhador, disciplinador.

·         Forte, calado, valente.

·         Racional, agressivo, afirmativo.

·         Invulnerável à ternura e a emoção.

·         Rude corporal e gestualmente.

·         Dono do exercício do poder.

·         Possuidor de virilidade de competições.

Barthes e Lacan, consabidos grandes filósofos e pensadores, com incidência no domínio do pensamento e da sua articulação com a palavra, consideram que "pensamos com as palavras". Na verdade, usamos as palavras não só para comunicar, e nesse contexto elas são o veículo de transmissão do nosso pensamento, mas também as usamos para construir as nossas próprias ideias, conceitos e pensamentos. 

Dado que os “média” reflectem a sociedade, e dada a importância que têm na formação da opinião pública, é útil, para além de importante, verificar que tipo de cobertura jornalística é feita da Família como prestadora de cuidados às Crianças.

Tal avaliação permitir-nos-á constatar que tipo de representação da família, nas suas múltiplas  vertentes, é veiculada pelos “média”.

Objectivo de Desenvolvimento

A instituição social familiar é considerada um dos principais fundamentos de uma sociedade embora variem as suas estruturas e formas de funcionamento.

 A Representação da Família

 Família - que imagem, conceito e comportamento estão a ser passados para a opinião pública?

    Igualdade entre os Sexos dentro da Estrutura Familiar

    Papéis e estereótipos de género - Pais, Mães e Filhos

    Igualdade entre Mulheres e Homens

O que é considerado como esperado das mulheres, dos homens, dos pais, das mães e dos filhos?

 ...

 

Pretende-se, a partir do sócio-cultural e familiar, sensibilizar os especialistas e a população em direcção à busca de variações do designado e o imaginário social, em direcção à assimilação de novos paradigmas de parentalidade cada vez mais progressistas, e que signifiquem uma opção válida para pais como emergência de mudança.

 Direccionar a sensibilização através de uma adequada divulgação pelos meios de comunicação de massa, e campanhas educativas a respeito do assunto, em função de um redimensionamento dos papéis paterno e materno.

 

 

Os papéis parentais e os sistemas de suporte intra-familiares.
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[1] Nelson Z. Martínez, O Papel da Paternidade e a Padrectomia Pós-divórcio (Psicólogo, Master en Psicología Clínica, Docente Universidad del Bio-Bio, Chile)
 
[2] M.P. Arés, Hogar, dulce hogar. Mito o realidad. Facultad de Psicología. Universidad de La Habana; Cuba; 1996 ; R.L. Fernández, Las relaciones de pareja, un enfoque personológico para su estudio y comprensión. Tesis de Doctorado en Psicología. Facultad de Psicología. Universidad de La Habana; Cuba; 1994 ; P. Silveira, Anteprojecto de pesquisa, ejercicio da paternidade. S/p, 1997; R.E. Fay, The disenfranchised father, Advances in Pediatrics, E.U.A., 1989.
 
[3] Roland Barthes (1915-1980), filósofo francês, linguísta e educador. Estudou Literatura Francesa e Clássica na Universidade de Paris. Após ter ensinado francês nas Universidades da Roménia e do Egipto, juntou-se ao Centre National de Recherche Scientifique, onde dedicou os seus esforços de pesquisa à sociologia e lexicologia. Escreveu livros sobre a Cultura Francesa, Critica e Teoria Literária. Até à data da sua morte foi professor no College de France.
 
[4] Jacques Lacan (1901-1981), psiquiatra francês, dedicou-se ao estudo da linguística estrutural. Com Daniel Lagache, fundou a Societe Française de Psychoanalyse. Uma vez que as suas teorias continuam a ser desenvolvidas, Lacan e os seus seguidores fundaram a Ecole Freudienne em Paris em 1964.
 
[5] Maria Madalena, Psicologia como suporte ao Conselho Tutelar, Académica de Psicologia.
 

Maria Teresa Brandão Coutinho, Apoio à família e formação parental, Análise Psicológica (2004), 1 (XXIII): 55-64.
 

Maria Teresa da Silveira Rodrigues Ribeiro, Família: Comunidade Educativa, Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa.
 

A classic definition of family, according to anthropologist George Murdock, is "a social group characterized by common residence, economic cooperation, and reproduction. It includes adults of both sexes, at least two of whom maintain a socially approved relationship, and one or more children, own or adopted, of the sexually cohabiting adults."
The U.S. Bureau of the Census has defined a family as "two or more persons related by birth, marriage, or adoption, who reside together." Thus a family can be two or more adult siblings living together, a parent and child or children, two adults who are related by marriage but have no children, or adults who adopt a child.
The Merriam-Webster definition of "family" is the basic unit in society traditionally consisting of two parents rearing their children; also : any of various social units differing from but regarded as equivalent to the traditional family <a single-parent family>.
A family unit; people who care for each other that are related.
 
A família representa um grupo social primário que influencia e é influenciado por outras pessoas e instituições. É um grupo de pessoas, ou um número de grupos domésticos ligados por descendência (demonstrada ou estipulada) a partir de um ancestral comum, matrimónio ou adoção. Nesse sentido o termo confunde-se com clã. Dentro de uma família existe sempre algum grau de parentesco. Membros de uma família costumam compartilhar do mesmo sobrenome, herdado dos ascendentes directos. A família é unida por múltiplos laços capazes de manter os membros moralmente, materialmente e reciprocamente durante uma vida e durante as gerações.

Podemos então, definir família como um conjunto invisível de exigências funcionais que organiza a interacção dos membros da mesma, considerando-a, igualmente, como um sistema, que opera através de padrões transaccionais. Assim, no interior da família, os indivíduos podem constituir subsistemas, podendo estes ser formados pela geração, sexo, interesse e/ ou função, havendo diferentes níveis de poder, e onde os comportamentos de um membro afetam e influenciam os outros membros. A família como unidade social, enfrenta uma série de tarefas de desenvolvimento, diferindo a nível dos parâmetros culturais, mas possuindo as mesmas raízes universais (MINUCHIN,1990).

Alberto Eiguer, psicanalista francês, em seus livros “Um Divã para a Família” e "O Parentesco Fantasmático" estabelece alguns “organizadores” que orientam a escolha de parceiro. Para ele, os casamentos e, por extensão, a família, se estruturam por mecanismos inconscientes ligados às primeiras experiências de vinculação.

Alberto Eiguer edifica um modelo de vínculos intersubjetivos narcísicos e objetais, do qual emergirá a representação do antepassado que desperta identificações cheias ou ocas, estruturantes ou aniquiladoras. E assim, mostra que doravante faz-se necessário - se admitirmos que o sujeito utiliza-se do outro como defesa, como fonte e motor de seu imaginário - pensar a família em termos de "transgeração" e "mito familial". Afirma que “os objetos parentais constituem o núcleo do inconsciente familiar”, para o bem e para o mal, pensa o psiquiatra e psicanalista Cláudio Costa [1].

Para Eiguer, são três organizadores: 1) Escolha de objeto; 2) as vivências do “eu familiar” e sentimentos de pertença”; 3) o romance familiar, vivido na primeira infância, representando uma imagem idealizada dos pais.

Quanto ao primeiro ítem - “escolha de objeto” - haveria três modelos:

1) Escolha objetal anaclítica, ou assimétrica: o homem ou a mulher buscam um parceiro que lhes forneça amparo e apoio (mãe ou pai da infância). É uma escolha alimentada pela pulsão de conservação e visa, antes de tudo, dominar a angústia de perda das figuras parentais. Haveria uma identificação mútua na perda e cada um idealiza o outro. De alguma forma, o casal se julga sabedor de como um deve sanar a falta do outro. Dois caminhos se oferecem: a) defensivo: quando o homem escolhe uma mulher que é o oposto ao pai e vice versa; b) regressivo: quando se identifica, no parceiro, um sucedâneo da figura parental de identificação. Conheço um casal, por exemplo, que se conheceu no Cemitério Parque da Colina(BH), quando ambos velavam as respectivas mães.

2) Escolha objetal narcisista, ou simétrica: Neste caso, a pessoa se liga a um parceiro que se assemelha: a) ao que se é; b) ao que se foi; c) ao que gostaria de ser; d) ao que possui uma parte do que se foi.

O vínculo se estabelece a partir de uma idéia de poder, orgulho, omnipotência e ambição. Por exemplo: o parceiro seria alguém que seja difícil, a fim de se comparar com ele em força e em capacidade manipuladora. Há um jogo sadomasoquista na relação. Exemplo: uma pessoa, muito fechada, tímida e insegura se sente atraída pelo parceiro arrogante e sociável. É provável que uma das partes acabe desprezando a outra.

3) Escolha objetal edípica, ou dissimétrica: trata-se de uma escolha regida pela identificação madura e adulta ao pai do mesmo sexo.

Exemplos: a) um rapaz se casa com uma mulher que, de alguma forma, representa a mãe dele; b) casais que procuram o significado de sua relação amorosa, de interação homem-mulher, baseados nas vivências satisfatórias em suas famílias de origem.

As afirmações de Alberto Eiguer se basearam em pesquisas feitas durante anos, na França, com casais que procuraram terapia. As bases teóricas se fundamentam na teoria psicanalítica do Complexo de Édipo e sua resolução – teoria esta colocada em cheque por inúmeros autores. Afinal, Freud viveu na época vitoriana e tinha, por modelo, a família estruturada pelo pai, mãe e filhos. Esse tipo de família, por incrível que pareça, somente foi definido por Littré, em 1869 (há menos de duzentos anos).

Aliás, é bom lembrar que a palavra "família" deriva do verbete latino "famulus" = 'domésticos, servidores, escravos, séquito, comitiva, cortejo, casa, família'.

Atualmente, após a “revolução feminista”, a liberdade sexual, o desmascaramento das hipocrisias pequeno-burguesas, a facilidade de se obter divórcio, os filhos de pais separados ou “avulso”, inseminação artificial, clonagem, muita coisa mudou.